Devaneios de um domingo a tarde

Faltavam-me palavras.
Queria porque queria registrar aquele momento, aquela sofreguidão em dizer o que sentia. Descrever aquela ausência latente no peito, aquele desejo de se jogar em direção ao desconhecido.

No peito brotava uma vontade absurda de pegar a estrada e sair por aí. Mas faltava dinheiro, afinal por aqueles dias já havia gastado demasiadamente nas reuniões sociais que aconteceram durante a semana.

Sobre a mesa pousava o prato vazio, fruto da última refeição. Os restos de comida impregnavam o ambiente com o cheiro característico da comida feita por meu pai. Os temperos, os gostos, tudo deixava o ar impregnado com um frescor de pimenta. Se é que pimenta pode deixar algo fresco ao invés de ardente.

Resolvi então ir até a cozinha, na busca de um refresco ou algo que saciasse a sede. Porém sede maior é que eu tenho em minh'alma nesse instante. Algo insaciável talvez.

Espacei as linhas, criei conteúdo de forma a preencher a lacuna do tempo.
Compreendia o sorriso, mas não o entendia.

Enquanto isso, balançava as pernas de forma cadenciada, numa tentativa de afastar o frio. Não que o tempo estivesse com temperaturas amenas, mas porque apesar do inverno ser presente, eu usava o velho short azul... O mesmo que no verão costumava valorizar minhas pernas durantes as longas pedaladas pelas ruas da cidade.

Recordei-me que me propus voltar a pedalar. Desta segunda nada passaria.
Contas acertadas, bicicleta renovada e leituras em dia. Tudo começaria a ficar em ordem.

Contudo, havia ainda o dia de hoje. O domingo solitário, refém de mim mesma.

Jogue tudo pelos ares, vem fazer parte de mim. Era isso o que tinha vontade de dizer a todos os estranhos, era isso o que eu tinha vontade de gritar da janela do quarto. Mas silenciei, da mesma forma como há algum tempo venho silenciado meu coração.

Da mesa

TV ligada, fones de ouvido. iPhone. iPod. Cartoon Network.
Penumbra. Take me out.

Skol. Outra Skol.
Caneta, lápis, lapiseira, porta-treco, porta-caneta, porta-coração.
Foto. Porta-retrato.

Celular. Guitarra. Solo. Solidão.
Distância, pensamento, saudade?

Grande rio. Rio de Janeiro. Loucura jogo e armação.
Palavras, mensagens, ausência, ressaca.
Mais bebida, mais palavras, mais sinceridade.

Paixão: Sim ou Não?

Sobre as chaves e o castelo

Dei-te a chaves do meu mundo.
Conhecer uma parte do que sou depende, agora, muito mais de ti do que de mim. Em cada armário espalhado por aqui você encontra uma parte de mim. Minhas mágoas, todas elas, estão jogadas no fundo dessas gavetas que você encontra a cada novo passo dado na direção que te apontei.

Aqui dentro do meu mundo o que você encontra é um alguém sem defesas, alguém que baixou a muralha e permitiu que você adentrasse com a única condição de manter segredo sobre o que você irá ver.

Por precaução resolvi olhar novamente os armários dos quais você agora tem a chave. Cuidado, muita coisa pode assustar, mas lembre-se que são os armários do passado. O presente está em outro lugar, o presente está num castelo.

Um castelo mais bonito por sinal. Um castelo chamado coração. Deste castelo você ainda não tem as chaves. E nem precisa... As portas desse castelo nunca ficam trancadas, estão apenas encostadas de forma que só quem ouse chegar perto descubra que pode entrar.

Há muito tempo ninguém reina soberano a partir do Castelo. Sua ultima Majestade partiu após a guerra e deixou apenas os armários repletos de lembranças e outras coisas.

Confesso que até pouco tempo atrás estava tudo desorganizado. Não sabia o que deixar nos armários e gavetas do passado e o que eu poderia deixar no castelo. Passei um tempo perdida dentro de mim para organizar tudo isso, mas agora até que está tudo organizado e principalmente: limpo das mágoas que eu sentia.

Sei que você está à porta. E sei que tem medo de entrar. O novo às vezes é apaixonante. Prometo te guiar e ficar ao teu lado.

Releituras de um amor

Fui reler as cartas que você não me entregou.
Tortura planejada e auto-praticada é algo um tanto quanto estranho. Mas penso que às vezes entrar em contato com a dor pode nos tornar mais fortes. E talvez isso tenha acontecido comigo hoje: Talvez eu tenha me tornado mais forte.

Em outras épocas, em outros tempos, em outros amores, cá estaria eu escrevendo palavras banhadas pelas lágrimas não contidas.

Hoje fui me torturar com o passado para ver a quantas andas o processo de cicatrização de uma doença que achava não ter cura. Me surpreendi com o resultado. As lágrimas, termômetro da minha angústia, nem sequer marejaram os olhos, nem sequer brotaram.

Será que encontrei a cura pra distância, pra saudade, pro amor mal resolvido?

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