Devaneios de um domingo a tarde
Faltavam-me palavras.
Queria porque queria registrar aquele momento, aquela sofreguidão em dizer o que sentia. Descrever aquela ausência latente no peito, aquele desejo de se jogar em direção ao desconhecido.
No peito brotava uma vontade absurda de pegar a estrada e sair por aí. Mas faltava dinheiro, afinal por aqueles dias já havia gastado demasiadamente nas reuniões sociais que aconteceram durante a semana.
Sobre a mesa pousava o prato vazio, fruto da última refeição. Os restos de comida impregnavam o ambiente com o cheiro característico da comida feita por meu pai. Os temperos, os gostos, tudo deixava o ar impregnado com um frescor de pimenta. Se é que pimenta pode deixar algo fresco ao invés de ardente.
Resolvi então ir até a cozinha, na busca de um refresco ou algo que saciasse a sede. Porém sede maior é que eu tenho em minh'alma nesse instante. Algo insaciável talvez.
Espacei as linhas, criei conteúdo de forma a preencher a lacuna do tempo.
Compreendia o sorriso, mas não o entendia.
Enquanto isso, balançava as pernas de forma cadenciada, numa tentativa de afastar o frio. Não que o tempo estivesse com temperaturas amenas, mas porque apesar do inverno ser presente, eu usava o velho short azul... O mesmo que no verão costumava valorizar minhas pernas durantes as longas pedaladas pelas ruas da cidade.
Recordei-me que me propus voltar a pedalar. Desta segunda nada passaria.
Contas acertadas, bicicleta renovada e leituras em dia. Tudo começaria a ficar em ordem.
Contudo, havia ainda o dia de hoje. O domingo solitário, refém de mim mesma.
Jogue tudo pelos ares, vem fazer parte de mim. Era isso o que tinha vontade de dizer a todos os estranhos, era isso o que eu tinha vontade de gritar da janela do quarto. Mas silenciei, da mesma forma como há algum tempo venho silenciado meu coração.


